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19 de maio de 2020

O Lugar Seguro

Meu Diário

Oi, como você está? Eu pessoalmente me sinto estranha ultimamente. Mas em paz. Muita paz. De um jeito nunca experimentado antes.

Estamos no futuro. Num futuro estranho. Jamais imaginei que em 2020 pudesse ter que evitar um aperto de mão, e muito menos que isso fosse fazer parte de uma obrigação social.

Na verdade minha ideia de futuro, quando tinha apenas 10 anos, era a família dos Jetson’s – o desenho animado, lembra? Talvez você seja muito jovem para isso. Procure no google. Mas olha, no quesito distanciamento social, os Jetson’s foram precursores, e eu nem havia percebido isso.

Muito além do distanciamento social, por trás disso tudo que estamos vivendo existe um tema que paira soberano, único, o motivo pelo qual o mundo está ensandecendo.

A segurança.

O regresso gradual à liberdade não é um sinal de alegria para todos.
Na verdade, é muito provável que haja mais medo do que antes.

Se você se encontra nesta categoria, eu compreendo o que está sentindo.
Embora esteja na Itália e longe da minha família no Brasil, e tenha vivido uma quarentena longuíssima, é estranho, mas sair de casa já não me interessa tanto, a não ser para caminhar na natureza, abraçar árvores ou observar o acasalamento das espécies.

Estou pensando, no entanto, naquelas pessoas que passaram por esse período de uma forma ainda mais drástica e dolorosa. Quem perdeu alguém querido, quem perdeu o trabalho, a empresa, a saúde, ou a vida.

Quanto tempo passou desde que tudo isso começou?
Quase três meses, talvez, mas parece uma eternidade… é verdade que o tempo é relativo.
Foram, talvez, os meses mais longos da nossa vida.
E os meses que dizimaram, transformaram, mudaram tudo o que existiu antes disso.

Adaptamo-nos a uma nova realidade e aos poucos nos pegamos fazendo coisas que antes estavam fora da nossa imaginação: usar máscaras, manter a distância de um metro entre pessoas, sair com autorização policial, ficar sempre dentro de casa, ser interrogado por fiscais na rua, ser impedido de entrar ao supermercado em duas pessoas, evitar elevadores.
Não foi fácil se adaptar, mas nós nos adaptamos.
Alguns conseguiram mesmo recuperar o seu espaço, reinventar-se, encontrar novas formas de sobrevivência.

Mas agora que, lentamente, as regras estão diminuindo, mais um passo está prestes a ser dado, um novo passo importante a dar… e a mente tem de voltar a adaptar-se às condições do momento presente.

É absurdo pensar e escrever isto, eu sei, mas mesmo neste caso é provável, e normal, encontrar novas resistências.

Porque, afinal de contas, cada mudança traz consigo o medo.
Temos sempre medo do que não sabemos.

Somos inseguros.
Embora pareça que isso esteja chegando ao fim, como será depois?

A questão é que quanto mais nos aproximamos desse fim, mais… não sabemos o que nos espera. E fazemos sempre isso.

Porque o tempo passará de qualquer forma, e a vida continua mesmo que não nos sintamos seguros. Nesse caso quando voltarmos a normalidade, ela não será a mesma de antes.
Desde o trabalho, às relações, aos projetos que tínhamos em mente e que foram despedaçados, ou foram repensados ou adiados.
Mesmo as prioridades que tínhamos antes nunca mais serão as mesmas.

E de repente, face a esta incerteza, surge toda a nossa inadequação, a nossa vulnerabilidade.

Olhamos para a nossa casa, aquela que provavelmente detestávamos no início, onde passávamos a maior parte do nosso tempo em isolamento forçado, e agora parece mais confortável. Mais segura. Enquanto lá fora, olhando pela janela, há algo novo, uma nova normalidade à nossa espera e não sabemos como ela vai se comportar.

Mas sempre foi assim: nunca podemos saber o que vai acontecer no futuro, só podemos experimentar o que vivemos até agora.

A vulnerabilidade faz parte do nosso ser humano, e é correto reconhecê-la e acolhê-la.

O segredo não está em protegermo-nos dentro de uma couraça, neste caso permanecendo fechados dentro de casa, mas sim em acolher tudo o que nos aparece, tendo a capacidade de confiar naquilo que nos mantém de pé: as nossas raízes interiores.

É aí que está escondido o nosso verdadeiro lugar seguro.

Não é a nossa casa, não é o novo decreto ou as etapas que virão a seguir.
É algo que temos que construir dentro de nós, dia após dia, como uma planta a ser cuidada e regada.

Porque enfrentar a vida em todos os momentos é o que realmente nos permite compreendê-la cada vez mais profundamente. E é isso que nos dá coragem para superar as nossas dificuldades.

É preciso ter paciência, é verdade.
Mas não é uma paciência aborrecida e estéril. É mais um estado de espírito que sabe que nada acontece do dia para noite, que há um tempo para tudo, tal como uma planta constantemente cuidada.

Espero sinceramente que você possa continuar a cuidar dessa planta. E que ela se enraíze firmemente e cresça frondosa, cultivando dia após dia o seu único lugar seguro, que não está em nenhum outro lugar do mundo, senão dentro de si mesmo.

Um abraço.

Hari Om.